“Causos” de videogame 1 – A lenda de Paton

5 03 2011

Após um breve cálculo mental, acredito que esta história tenha acontecido nos meados da década de 90. Naqueles pacíficos tempos de outrora, onde o maior desafio da vida era decorar a maldita da tabuada, a turminha aqui do bairro tinha o hábito “religioso” de se reunir aqui em casa, nas tardes de sábado, para jogar Super Nintendo. E a predileção por minha humilde residência, vale ressaltar, era plenamente justificável, eis que minha mãe sempre arrumava pão de queijo, bolo de chocolate e Coca-Cola para um lanchinho no fim da tarde.

Nessas ocasiões, o multiplayer (na época conhecido como “jogar de dois”) reinava absoluto. Em consequência, um título se destacou entre os demais, por permitir partidas rápidas e disputadas entre os membros da patota: Super Soccer, lançado pela Nintendo em 1992.

Super Soccer: clássico futebolístico do bairro.

Pois bem. Acontece que na seleção do Uruguai havia um jogador chamado Patón. E não sei porque raios (provavelmente porque o nome do jogador era engraçado… para crianças de nove anos, pelo menos!), nosso Código de Ética e Legislação infantil passou a considerar um motivo de extrema humilhação, de imensurável vergonha e de irreparável dano à honra levar um gol dele. O infeliz que tivesse o azar de ter sua rede balançada pelo camisa onze uruguaio seria punido com escárnio absoluto, sendo alvo de uma zoação intensa que possivelmente o traumatizaria pelo resto de sua vida miserável.

Seleção do Uruguai; Patón escalado com a camisa 11; Patón em campo.

A coisa chegou num ponto tão sério que quando jogávamos no Single Player e era vez enfrentar o Uruguai, NINGUÉM queria pegar o controle, temendo levar gol do Patón. Tirávamos na sorte quem jogaria, e, como o sorteado sempre reclamava, permitíamos a ele uma oportunidade de redenção: caso o Patón chutasse a gol, o jogador poderia desligar o console, de forma a resguardar sua própria dignidade… antes mesmo da bola se aproximar da meta!E vi esse benefício ser usado, até mais de uma vez.

Visando o mesmo objetivo, pactuamos que seria proibido escolher o Uruguai no modo para “dois players”.

Foi então que aconteceu “o fato”. Numa destas tardes, um dos amigos, o Diego, clamando ter se tornado “O MESTRE” do Super Soccer, desafiou todos os demais. E permitiu, inclusive, que escolhessem o Uruguai, afirmando e repetindo que não levaria gol algum, muito menos do maldito Patón.

Não tendo nada a perder, os outros logo animaram. Escolhendo o Uruguai, lógico.

Acontece que o Diego realmente a “massacrar”. É que em Super Soccer, quando uma seleção é ruim, é RUIM mesmo, e o Uruguai tinha todos os “stats” bem baixos. Todos levavam goleadas homéricas, e o prepotente oponente estava praticamente brincando em campo. Quando alguém pegava a bola com o Patón surgia um certo desespero, e o Diego logo mandava alguém para arrebentá-lo (afinal, o que é um cartão vermelho perto de levar um gol do Patón?), o que logo lesionava definitivamente o camisa onze.

Só que depois de mais uma dezena de partidas, todas vencidas de goleada, o pessoal se distraiu na conversa. E bem… sabe quando o papo fica tão animado que você até esquece que tá jogando?

O tempo rolando, 43 do segundo e a bola sobra pra um jogador uruguaio no centro de campo. Ele pega, dribla um, dois, entra na área e chuta. Gol. Tudo normal até aí, “mas espera aí, de quem foi o gol mesmo?”

... e aconteceu.

Sim, meus amigos, o pior aconteceu, e quando ninguém esperava. A tela mudou e lá estava Patón em toda estrutura pixélica, comemorando seu gol, com um sorriso de 16 bits tão animado que parecia saber o que aconteceria naquela residência.

Eu juro para vocês: palavras não descrevem a quantidade de URROS, risadas e zoações que se sucederam. Eu tenho viva na minha memória, inclusive, a lembrança de um dos moleques, o Fabrício, pulando, apontando e gritando feito um louco de hospício, com o olhar transviado de tanto prazer pela desgraça alheia. O Diego ficou atônito, começou a balançar o queixo, tentou falar alguma coisa… mas com tanta pressão logo se pôs a CHORAR, num espetáculo mórbido que só foi interrompido com a pronta intervenção da minha mãe.

Mas isso não impediu que se tornasse motivo de piada até se mudar dali, uns dois anos depois. “Cê tomou gol do Patón, cara!” era a resposta, sempre que ele dizia qualquer coisa.





Da maneira correta de comer certos alimentos (1)

17 02 2011

Há algum tempo, tenho empreendido, em caráter de pioneirismo, várias pesquisas e discussões sobre um tema ainda inédito nos estudos acadêmicos sobre os aspectos gastonômico-comportamentais do ser humano: a maneira correta de ingerir certos alimentos.

Tudo isso começou quando passei a reparar, com um olhar objetivamente científico, que pessoas que comem os alimentos da forma “correta” são inevitavelmente personalidades de sucesso (profissionalmente, socialmente, afetivamente e pessoalmente), enquanto aqueles que os ingerem de forma errada são fracassados e desgraçados na vida, sem qualquer possibilidade de salvação.

E esta é uma regra que não aceita QUALQUER exceção.

Nesta breve digressão preliminar, pois, tratarei do consumo de dois alimentos, apontando o que o jeito de comê-los indica sobre sua personalidade do alimentado:

A) A COXINHA

O QUE É: Desnecessário definir neste blog o que é a coxinha, uma vez que ela atinge patamar de imensa popularidade no ramo alimentício dos “salgadinhos gordurosos” na cultura gastronômica brasileira contemporânea. Composta de uma parte derivada do trigo (a “massa”) e do recheio de galinha (“franguin do grau”), podendo receber um adicional lactício de catupiry.

O JEITO CERTO DE COMER COXINHA:

MANEIRA CIENTIFICAMENTE CORRETA

Começar a comer a coxinha pelo "bico": Você é um cidadão de bem, que paga seus impostos e contribui para o bem estar social.


MANEIRA INCORRETA

Começar a comer a coxinha pela "base": Você é um vagabundo, escória da sociedade, que frequenta banheiros masculinos pelo único propósito de manjar pirocas alheias.


JUSTIFICATIVA: Muitos acreditam que o formato da coxinha advém da “coxa” do galináceo conhecido como”frango”, o que, por óbvio, é um eminente equívoco. Qualquer pessoa com parcos conhecimentos alimentícios sabe que o salgado tem esse formato justamente para indicar ao alimentado o local certo para cravar a primeira mordida (o bico), abrindo espaço para a injeção de molho de pimenta diretamente no recheio, sem, contudo, tocá-lo previamente. O formato também privilegia a lógica do “melhor-vem-no-final”, ao deixar o recheio (e, opcionalmente, o catupiry) para o término da refeição.

B) ARROZ COM FEIJÃO

O QUE É: Prato tradicional brasileiro, almoçado por 10 em cada 10 famílias, o arroz com feijão exprime uma combinação perfeita entre dois alimentos (conhecida pela cultura russa como “Кухня совершенства”), encontrada muito raramente, como na goiabada com queijo (na medida queijo/goiabada 2:1) e da carne com a gordura (como exemplo, o “filete” da picanha)

MANEIRA CIENTIFICAMENTE CORRETA

Feijão por cima do arroz: Se homem, você é um macho viril, atraente e respeitado por todos em seu círculo social. Se mulher, é uma dama admirada pela imensurável beleza e modos impecáveis.


MANEIRA ERRADA

Arroz por cima do feijão/arroz separado do feijão: Você trabalha nas horas vagas como lustrador de jebas com a língua.

 

JUSTIFICATIVA: O arroz, como grão servido primordialmente em sua forma sólida, deixa espaços entre si quando posicionado em um prato. Assim, o feijão, geralmente servido num conjunto entre grãos sólidos e caldo líquido (“caldim”), deve ser necessariamente derramado por cima, de forma a preencher os “espaços vazios”, agregando sabor ao alimento e proporcionando prazer ao almoçante. Comer de qualquer outra forma, seja separado ou o arroz por cima, é subverter uma lógica básica, e uma atitude digna da mais aguda reprobabilidade social.

MANEIRA CIENTIFICAMENTE CORRETA

Comer com o arroz virado para si: Você é um sujeito inteligentíssimo, cuja mente privilegiada ajudará a humanidade a progredir a um futuro glorioso.


MANEIRA ERRADA

Comer com o arroz na parte mais distante do prato: Retardado.

JUSTIFICATIVA: Devido a já comentada estrutura física do arroz e do feijão, estes devem estar sempre virados para o alimentado durante a refeição, eis que quanto mais distantes, maior a chance de despencarem do garfo durante o trânsito prato-boca.

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Futuramente, no decorrer desta pesquisa empírica, apresentarei novas descobertas e conclusões. Grato.





Jogos, distribuição digital e primeira experiência

5 02 2011

Há alguns dias atrás, enquanto aproveitava um fim de semana “forever alone” jogando Final Fantasy XIII, engajei numa animada conversa com o meu irmão acerca do “glorioso” passado da série. Como assuntos deste tipo tem a grande capacidade de se desdobrar em diversos outros temas, logo caímos nas nostálgicas lembranças do nosso passado com jogos.

No meio deste papo, meu irmão me recordou de um jogo que virou uma verdadeira “febre” entre nossos amigos no (já) longínguo ano de 2002 (ou seria 2001?). Na época, ele veio na famigerada revista CD Expert, nossa grande fornecedora de jogos “B” e CDs com bilhões de demos, e apesar de não ter feito sucesso – sequer tendo uma continuação! – nos conquistou logo na música da tela de abertura.

Eu falo do tremendíssimo Shogo: Mobile Armor Division.


Fala que a abertura não é a mais empolgante que você já viu?

Na mesma hora, corremos para o Youtube e achamos o vídeo aí de cima. E com ele, veio uma vontade imensa, desesperada e imediata de jogar essa “pérola”, relembrando os bons tempos… E nós podíamos fazê-lo, afinal, com a internet, não há obstáculos a esse desejo, correto?

Ledo engano. (obs.: cacete, até a busca por jogos retorna porn nos resultados)

Ledo engano. (obs.: cacete, até a busca por jogos retorna porn nos resultados)

Rapidamente nos lembramos do detalhe “trata-se de um jogo nem tão famoso lançado há mais de uma década”, e concluímos que seria impossível achá-lo para baixar rapidamente. Foi aí que me lembrei de um certo texto publicado no Gagá Games, sobre um site que poderia, naquele momento, salvar a nossa noite.

GOG.com, o salvador

GOG.com, o salvador

O Good Old Games (doravante referido como “GOG”) é um site que disponibiliza, a preços bastante módicos (menos de dez dólares!), jogos antigos para download, com suporte oficial, expansões, patches e até mesmo manual em PDF.  E como vários desses títulos encontrariam problemas para rodar em máquinas mais recentes (um bom exemplo é o Commandos original, que nos PCs modernos roda em “supervelocidade”, necessitando de um programa que “limita” o desempenho da CPU pra funcionar adequadamente) o GOG disponibiliza os jogos PERFEITAMENTE adaptados para os sistemas de hoje, bastando, literalmente, “baixar, instalar e rodar“.

Necessário ressaltar, outrossim, que o site não coloca qualquer proteção anti-pirataria (como serial keys/validadores, DRM, limitações de instalação e etc.) e o jogo fica disponível indefinidamente na sua conta, podendo ser baixado quantas vezes você quiser e quando desejar.

Na hora, não hesitei: entrei no site, abri o catálogo, e no meio de tantos títulos marcantes, lá estava o Shogo. Na mesma hora fiz o cadastro, saquei meu cartão de crédito e adquiri essa belezinha. Resumo da “ópera”: em menos de 25 minutos do surgimento da idéia inaugural, já tinha o jogo baixado e rodando perfeitamente aqui em casa.

E de quebra, levei o Commandos.

 

 

Olha aí a minha estante.

Olha aí a minha estante.

No outro dia, empolgado com a idéia, resolvi dar uma olhadinha em um site bastante “similar”, voltado aos jogos mais recentes, o qual nunca havia visitado por não ser um PC gamer: o Steam. E, de cara, já tive um espanto muito positivo.

Há algum tempo, meu irmão chegou em casa trazendo o Left 4 Dead para o XBOX 360. Não sou muito fã do estilo, portanto, não o conhecia, e achei a “idéia” do jogo (sobreviver ao apocalipse zumbi com amigos) excelente. Contudo, me pareceu que a maior diversão deveria ser no multiplayer… Mas de cara, já concluí: “meu XBOX é destravado e não arrisco a Live, e isso pra PC deve custar os olhos da cara, então, nada de multiplayer”…

Mas olha aí quanto tá no Steam:

Essa sucesão de acontecimentos me alertou para fato de que a distribuição digital pode ser uma alternativa interessante para os gamers brasileiros, desde que você queira apenas jogar com suporte oficial, dispensando as caixinhas, os manuais e a mídia física. Como cediço (e vou evitar me delongar nesse assunto tão batido ultimamente), a carga tributária incidente sobre os jogos importados aqui no Brasil chega a mais de 70% do valor do produto, o que eleva o valor dos jogos a um patamar praticamente inacessível, considerando a realidade socio-econômica brasileira. E por meio do “download” oficial, feita a devida correção do valor da moeda, você paga o mesmo valor que o pessoal paga lá fora, livre de impostos e outros encargos que encarecem sobremodo o produto. Dependendo, vale a pena!





Quando a CARNE dominou o mundo

7 01 2011

[O texto a seguir tem propósitos (por óbvio) PURAMENTE satíricos. Não apoio e nem tenho a intenção de enaltecer os crimes e absurdos perpetrados pelo nazismo/ditaduras.]

Tudo começou numa reunião secreta, nos fundos de uma casa, em dezembro de 2010.  Após as identificações, realizadas por senhas e contrasenhas, e a apresentação dos novatos aos veteranos do movimento, começaram a discutir a pauta do dia: a organização definitiva de um grupo político (e, se necessário, paramilitar) que pudesse levar o Brasil ao pleno desenvolvimento, através da adoração da Carne como o Alimento Superior, por meio da então denominada “Doutrina da Carne”.

Nos dias de acalourada discussão que se sucederam, os convidados fundaram um grupo organizado e coeso, a partir daí conhecido como Partido Carnista, e fixaram, logo de início, seus motes principais (que mais tarde seriam conhecidos como os três mandamentos da Carne):

1. A Carne é o alimento superior.

2. O pleno desenvolvimento social-econômico no país só pode ser atingido através do culto à carne.

3. Qualquer desprezo pela carne será considerado, em consequência, um desprezo pelo bem estar do povo desta nação, devendo ser sumariamente punida.

Ali, também, definiram a organização administrativa do Partido. Seus líderes, conhecidos pelos codinomes Allan e Diego, haviam sido os co-autores da Obra que se tornou a “bíblia” do movimento: “Mein Kampf für das Fleisch” (traduzida para o português como “Minha Luta pela Carne”). Como líder da Congregação da Doutrina da Carne – CdC (vulgarmente conhecida como Santa Inquisição Bovina), cargo de suma importância que cuidava dos desaparecimentos e ações armadas contra os subversivos (mais tarde, institucionalizada como órgão responsável pelas torturas, prisões e execuções), escolheram Daniel, um jovem de orientação política e pulso firmes.

No biênio que se sucedeu, o grupo agiu de forma oculta, infiltrado nos movimentos sociais. Panfletos pregando a “Doutrina” e suas promessas de um progresso nunca antes imaginado começaram a ser lentamente difundidos entre a população (principalmente entre as classes mais baixas, onde se defendia o submovimento “carne na mesa para os mais pobres”) e pela internet, onde o movimento ganhou maior adesão. Os principais meios de comunicação em massa, vendo no Partido um meio de conseguir o monopólio da informação, começaram a demonstrar ligeiro apoio. Pouco a pouco, começou a se difundir também um ódio popular contra os vegetarianos – especialmente os vegans – nos quais recaía a culpa pelas mazelas do país. A mídia prontamente ignorava tais acontecimentos.

Em 2013, o movimento cresceu exponencialmente e ganhou gigantesco apoio popular, como nem os líderes e conselheiros do país esperavam. A Congregação para a Doutrina da Carne começou a promover o desaparecimento, imediatamente seguido de sumária execução, de vegetarianos de renome e de suas famílias, além de explosões nos estabelecimentos que se recusavam a servir carne entre os seus pratos.

Em 2014, o Partido foi oficialmente criado, e conseguiu eleger o maior número de prefeitos e vereadores já nas eleições municipais de 2016. No mesmo ano, o Partido Carnista começou a ter reconhecimento internacional, através das manifestações pró-Carne que conseguiram promover durante nas Olimpíadas do Rio, transmitidas para todo o planeta.

Contudo, temendo o crescimento da organização, os vegetarianos também começaram a se organizar e a pregar contra a Carne. O fato originou graves conflitos sociais, principalmente no período próximo as eleições presidenciais de 2018, quando Diego, concorrendo pelo PC, despontou nas pesquisas como principal presidenciável. O grande apoio das massas também estava prestes a garantir a maioria dos Carnistas no legislativo. E foi exatamente o que se sucedeu, e em 1º de janeiro de 2019, o Partido assumiu o domínio político da nação.

Os vegetarianos não aceitaram a Supremacia da Carne, e conflitos começaram a se desenrolar pelo país.

Essa agitação social chegou ao seu ápice no início de 2018, quando dois integrantes do movimento (conhecidos por Taylon e Apu) foram acusados de agredir dois vegans pregadores no meio de uma avenida de grande movimento, numa grande capital, utilizando espetos de churrasco. Os vegetarianos, em represália, e visando garantir a prisão dos acusados, sequestraram três delegações estrangeiras participantes da Copa do Mundo durante o julgamento do caso. O país parou para assistir ao julgamento de Taylon e Apu. Durante a audiência, membros infiltrados da CdC descobriram que o juiz era vegetariano, tendo se servido de nabos e alface durante o recesso para o almoço. A decisão não podia, pois, ser diferente, e Taylon e Apu foram condenados.

Assim que o magistrado prolatou a decisão, estourou a então conhecida Gloriosa Revolução da Carne de 2019. O líder do CdC, Daniel, que assisitia a sessão, alvejou ali mesmo, com uma arma escondida sob a roupa, o juiz e os membros do Ministério Público. Os seguranças e as forças estatais não interviram: dentre seus Comandantes, figuravam “cabeças” do Partido, que já aguardavam o golpe de estado. Forças militares do CdC invadiram o local onde os vegans mantinham as delegações reféns, e com seus soldados mais bem preparados fisicamente (afinal, comiam carne), mataram todos os sequestradores sem ferir nenhuma vítima, fato que deu apoio internacional ao Carnismo.

A guerra civil estourou nas ruas, e os bravos soldados que lutavam pela Carne, comandados pela CdC (que foi fortalecida pelo efetivo do exército e das polícias militares dos Estados) foram, pouco a pouco, extirpando os focos de resistência vegetarianos.

Em 24 de julho de 2019, o presidente Diego Campos fechou o Congresso Nacional, e ali mesmo, junto com Allan, que era o atual presidente do Senado, foram proclamados Líderes Supremo da Nação. A Constituição Federal de 1988 foi derrubada, sendo levantado o Ato Supremo de Governo nº 1, que retirou os direitos e garantias fundamentais dos vegetarianos, e estatuiu os mandamentos Carnívoros como os novos fundamentos do Governo Ditatorial. O nome do estado foi mudado, afinal, “Brasil” é um nome oriundo de um vegetal (o pau-Brasil). Assim surgia a República Ditatorial Picanhista, e o país passou a se chamar Picanha. Taylon e Apu foram condecorados, ainda que vivos, os “mártires” da República.

Os anos seguintes testemunharam um turbulento movimento de transição. A Congregação para a Doutrina da Carne fundou os chamados “Campos de Concentração de Trabalho Pecuário” (CCTP), para onde os vegetarianos eram capturados e levados. Lá, eram forçados a trabalhar na criação do gado, lhes sendo oferecida uma oportunidade de redenção: caso fizessem bem seu trabalho e passarem a ingerir o Alimento Superior, eram perdoados, e o governo subsidiava seu retorno à sociedade. Caso persististem no veganismo, trabalhavam e eram torturados até a morte.

Necessário ressaltar que aqueles que não comiam carne meramente porque não gostavam do gosto, ou por condição médica, não eram levados para os CCTPs, e sim, exilados para países estrangeiros. Esse “perdão” se dava ao fato da rejeição pela carne não advir de suas vontades pessoais, mas de condições alheias ao seu controle.

O país experimentou um crescimento nunca antes visto. Em 2024, o analfabetismo foi erradicado, e em 2025 nenhum picanheu passava mais fome. A saúde pública e educação nacionais de extrema qualidade, inigualáveis aos de qualquer país. Devido a ingestão contínua do Alimento Superior, a expectativa de vida média dos picanheus e picanhéias atingiu os 100 anos de idade ainda em 2029. Por volta de 2035, Picanha era a potência hegemônica mundial, havia Paz Social e todos os cidadãos (lembrando que subversivos vegans não tinham direitos de cidadania) eram felizes.

Por volta de 2040, o Carnismo começou a se espalhar pelo mundo. Revoluções eclodiram pelo planeta, e vários governos adotaram a Doutrina. Os países que resistiram, conhecidos como “Eixo do Vegetal”, foram aniquilados pela “Aliança Carnívora” na Terceira Guerra Mundial, que ocorreu entre 2045 e 2050.

A partir daí, o mundo viveu uma Era de Ouro, cujos dias jamais terminaram.





Pet Shop

6 01 2011

[Faixa na frente do pet-shop:  "PROMOÇÃO: BANHO, 12 REAIS (SEG A QUA) / 13 REAIS (QUI A DOM)" (para raças pequenas)]

- Boa tarde.

- Boa tarde. [Vendedora caminha até o balcão]. Posso ajudar em alguma coisa?

- Na verdade, sim. Eu vi a faixa ali fora e fiquei interessado…

- É uma promoção válida pra esse mês, senhor. De segunda a quarta, o banho tá saindo mais barato.

- Sim, eu li quando passava pela rua. Mas deixa eu te perguntar uma coisa: qual a razão para o preço ser mais baixo nesses dias?

- Ah, sabe como é, senhor… O movimento é costumeiramente mais baixo entre segunda e quarta. É muito difícil alguém trazer cachorro aqui, porque o povo trabalha, estuda…

- Entendi. Mas é estranho… Costuma-se trabalhar e estudar nas quintas e sextas também.  Se for olhar por este critério, podiam dar desconto em todos os dias úteis, não?

- É, olhando por esse lado, faz um certo sentido… Mas como na quinta e na sexta o movimento é maior, podia trazer algum “prejuízo” à loja manter o preço mais baixo nesses dias também.

- Hm… Mas pera lá, o desconto é de um real só, não?

- Sim, de R$13 pra R$12.

- Então essa lógica é meio estranha. Primeiro porque o desconto é ínfimo… o que se compra com um real nesses dias? E tendo em vista ser uma loja de bairro, o número de clientes não deve ser tão alto a ponto desse desconto fazer alguma diferença no fim do mês.

- É…

- E justamente por ser ínfimo, esta promoção não atrai ninguém para a loja. Alguém que precisa dar banho no cachorro na sexta, não vai esperar até segunda pra ganhar R$1…

- Por esse lado sim, mas olha…

- Então, no fim, quem ganha o benefício é quem já ia trazer o animal até aqui nesses dias, de qualquer jeito. Se vocês cobrassem R$13 de segunda a quarta, garanto que tais pessoas trariam da mesma forma. R$1 real pra elas não deve fazer muita diferença… é um dinheiro que, no fim das contas, vocês estão deixando de ganhar sem propósito algum.

- Mas senhor, acho que tem gente que vai se interessar em trazer aqui só por causa do desconto…

- Muito difícil. Mas vamos seguir sua linha de raciocínio e imaginar um sujeito pão duro, bem sovina, que trará o bicho aqui na terça feira pra “ganhar” um real. Veja bem: como ele é mão-de-vaca, deve trabalhar pra ganhar seu dinheiro “suado”, então, só deve folgar aos sábados e domingos.

- Sim.

- E ele se veria forçado a trazer o cachorro na terça feira, dia péssimo pra ele, após o expediente. Viu bem, até pra eles vocês causam transtorno.

- Ah (…) [Pausa] Mas não fui eu que estipulei esse desconto não, veja bem. Isso aqui é idéia da “dona” da loja.

- Ah, sim, entendo.

- Mas você vai trazer seu cachorro aqui?

- Antes só uma outra dúvida: na placa está escrito que os valores são para raças pequenas. Qual é o critério objetivo utilizado para definir se uma raça é pequena ou não?

- Ah, a gente olha né… Se for grandezinho assim é mais caro…

- Mas filha, isso é um critério subjetivo, fundamentado em um livre juízo de valor seu. E ele é amplamente aberto a falhas… veja bem, você pode achar um cachorro “grande”, depois aparecer outro de estatura similar, e você considerar pequeno, por ter olhado com mais atenção. Ou pior: algo que você acha grande, pode ser pequeno pra outra vendedora ali.

- É, mas…

- Vocês deviam ter uma lista de tamanho/preço ou raça/preço.

- Sim, mas sabe… a loja é pequena, a gente não tem condição de fazer isso não…

- E tem outro problema ainda, minha filha. Veja bem, imagine um cachorro pequeno mas muito peludo, e um grande e pelado. Em qual vocês gastariam mais tempo e produtos?

- No peludinho.

- Então, o preço pra ele deveria ser mais caro, não?

- Faz sentido.

- Mas tudo bem, vou parar de tomar seu tempo aqui. Mas gostei da loja, vou trazer meu cachorro aqui qualquer dia desses. Num sábado, porque o desconto não faz diferença.

- Traga sim, aí é só me procurar, tá? Meu nome é Júlia, fico aqui nesse horário.

- Tá bom, Júlia, pode deixar. Uma boa tarde pra você.

- Boa tarde pro senhor também, e venha mesmo!

- Volto sim!

Mentira. Nem tenho cachorro. Só sou um grande filho da puta.





Aventuras Intermunicipais

2 01 2011

- Senhores passageiros, eu vou passar conferindo as passagens. Favor deixá-las à mão.

*sons padrões de ônibus de viagem*

- Senhor, sua passagem, por favor?

- Aqui está. (…) A propósito, amigo: eu vou descer no meio do caminho, na cidade de Augusto de Lima. Mas não é bem na cidade, é no primeira “entrada” após o Rio das Velhas… tem como você me avisar quando chegar?

- Olha, é mais fácil o Sr. ir olhando, e quando passar o Rio das Velhas, chamar lá na frente.

- Tá ok, pode deixar então. Eu aviso, conheço o rio.

Representação visual imaginada por mim do momento em que cruzasse o Velhas.

*Quatro horas e meia, alguns lanches e jogatinas de Ace Attorney Investigations depois*

- (Putaquepariu, esqueci de olhar se já tá chegando. Pelo horário, já devo estar BEM perto. Deixa eu abrir a cortina, pra olhar pela janela e ver quando o Rio das Velhas passar pra ir lá avisar o motorista).

Representação visual do momento em que eu decidi olhar se o Velhas estava chegando.

- (PUUUUUUUUUUTA MERDA, fodeu, fodeu tudo! Tá chovendo pra caramba, se eu descer errado, tô literalmente embolado! PQP, PQP, deixa eu tentar forçar as vistas pra ver se enxergo aqui!)

*dois minutos depois de forçar as vistas até a cabeça doer, vê um vulto extremamente similar ao de uma ponte passando*

- (Nossa, é aqui mesmo, tenho que ir pra frente do ônibus MUITO rápido, que depois da entrada certa eu não sei mais chegar la! Tenho que levantar rápido daqui e…)

Representação visual aérea do ônibus no momento em que precisei me deslocar com velocidade até o motorista.

Pelo menos cheguei vivo. Molhado, atrasado, mas vivo.





Silent Night

25 12 2010

“Noite feliz”, 25 de dezembro.

 

Aqui em casa, assim como em qualquer residência onde habite uma família “normal”, celebra-se o natal: ceia farta, presentes e tudo mais.  Contudo, a comemoração não é tão efusiva como é de costume geral… na verdade, é algo bem simples, restrito a um núcleo familiar pequeno. A grande “festança” mesmo, o momento de união, de reunir família de toda parte, comer, beber e festejar sem qualquer tipo de moderação, acontece sempre com a família Vieira, na virada do ano.

Em consequência, o natal aqui costuma ser bastante tedioso. Sempre.

Prevendo este fato, e visando aproveitar ao máximo a data, planejei ficar em casa jogando o dia todo. A família ia ficar por aqui também, e não ia achar ninguém pra sair e virar umas doses… não teria outro jeito.

Lembrando que hoje nada abriria, e já prevendo que finalizaria Halo 3 na sexta, encomendei, ontem, um DVD DL pra gravar algo novo pra debulhar no 360. O DVD veio -só um, eu tinha encomendado mais – mas “ok”, guardei. No utorrent, Bayonetta e o “game of the year”, Red Dead Redemption.

Na virada do dia 24/25, comida boa e álcool.

Acordei hoje bem cedo, com uma PUTA ressaca, e nem tinha bebido exageradamente. Faltou água, sei lá. E como minha casa tá cheia (parentes em visita e talz que levantam as FUCKING 6 da manhã) não consegui ficar na cama até muito tarde. Levantei, liguei o note, abri o CloneCD e me preparei pra queimar uma das ISOs e jogar como se não houvesse amanhã.
Foi quando virei a porcaria do DVD pra dar uma olhada.

E ele estava ABSURDAMENTE arranhado e marcado. Mas muito, muito mesmo. Provavelmente era aquele DVD do topo do tubo, que todo mundo despreza. Enquanto gritava um FFFFFFFFFFFFFFFUUUUUUUU- mentalmente, e chato como sou com questões envolvendo direitos do consumidor (até em mínima escala, haha), pensei em me dirigir até a loja imediatamente, efetuar a troca e aproveitar pra adquirir mais algumas mídias.

“Mas é natal, porra. Tá tudo fechado!”

E meu único plano pro dia estava frustrado.

Desesperado, pensei em arrumar outras coisas pra fazer. Organizar minhas finanças? Fiz em meia hora. Arrumar algumas pastas do PC? Mais meia hora. Fuçar sites, emails e afins? Menos de meia hora. Comecei a desesperar e fazer coisas inúteis que não faço a tempos, como mexer em MSN/Orkut (que, a propósito, estavam vazios, haja vista todo mundo estar celebrando o dia do Noel) e limpar minha mochila.  Liguei para alguns para desejar “feliz natal”. Pensei em sair mas lembrei que não havia ninguém disponível e nenhum lugar aberto.

E ainda tinha a porra do dia inteiro pela frente.

Saldo: dia chato.

Noite tediosa.








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