Após um breve cálculo mental, acredito que esta história tenha acontecido nos meados da década de 90. Naqueles pacíficos tempos de outrora, onde o maior desafio da vida era decorar a maldita da tabuada, a turminha aqui do bairro tinha o hábito “religioso” de se reunir aqui em casa, nas tardes de sábado, para jogar Super Nintendo. E a predileção por minha humilde residência, vale ressaltar, era plenamente justificável, eis que minha mãe sempre arrumava pão de queijo, bolo de chocolate e Coca-Cola para um lanchinho no fim da tarde.
Nessas ocasiões, o multiplayer (na época conhecido como “jogar de dois”) reinava absoluto. Em consequência, um título se destacou entre os demais, por permitir partidas rápidas e disputadas entre os membros da patota: Super Soccer, lançado pela Nintendo em 1992.
Pois bem. Acontece que na seleção do Uruguai havia um jogador chamado Patón. E não sei porque raios (provavelmente porque o nome do jogador era engraçado… para crianças de nove anos, pelo menos!), nosso Código de Ética e Legislação infantil passou a considerar um motivo de extrema humilhação, de imensurável vergonha e de irreparável dano à honra levar um gol dele. O infeliz que tivesse o azar de ter sua rede balançada pelo camisa onze uruguaio seria punido com escárnio absoluto, sendo alvo de uma zoação intensa que possivelmente o traumatizaria pelo resto de sua vida miserável.
A coisa chegou num ponto tão sério que quando jogávamos no Single Player e era vez enfrentar o Uruguai, NINGUÉM queria pegar o controle, temendo levar gol do Patón. Tirávamos na sorte quem jogaria, e, como o sorteado sempre reclamava, permitíamos a ele uma oportunidade de redenção: caso o Patón chutasse a gol, o jogador poderia desligar o console, de forma a resguardar sua própria dignidade… antes mesmo da bola se aproximar da meta!E vi esse benefício ser usado, até mais de uma vez.
Visando o mesmo objetivo, pactuamos que seria proibido escolher o Uruguai no modo para “dois players”.
Foi então que aconteceu “o fato”. Numa destas tardes, um dos amigos, o Diego, clamando ter se tornado “O MESTRE” do Super Soccer, desafiou todos os demais. E permitiu, inclusive, que escolhessem o Uruguai, afirmando e repetindo que não levaria gol algum, muito menos do maldito Patón.
Não tendo nada a perder, os outros logo animaram. Escolhendo o Uruguai, lógico.
Acontece que o Diego realmente a “massacrar”. É que em Super Soccer, quando uma seleção é ruim, é RUIM mesmo, e o Uruguai tinha todos os “stats” bem baixos. Todos levavam goleadas homéricas, e o prepotente oponente estava praticamente brincando em campo. Quando alguém pegava a bola com o Patón surgia um certo desespero, e o Diego logo mandava alguém para arrebentá-lo (afinal, o que é um cartão vermelho perto de levar um gol do Patón?), o que logo lesionava definitivamente o camisa onze.
Só que depois de mais uma dezena de partidas, todas vencidas de goleada, o pessoal se distraiu na conversa. E bem… sabe quando o papo fica tão animado que você até esquece que tá jogando?
O tempo rolando, 43 do segundo e a bola sobra pra um jogador uruguaio no centro de campo. Ele pega, dribla um, dois, entra na área e chuta. Gol. Tudo normal até aí, “mas espera aí, de quem foi o gol mesmo?”
Sim, meus amigos, o pior aconteceu, e quando ninguém esperava. A tela mudou e lá estava Patón em toda estrutura pixélica, comemorando seu gol, com um sorriso de 16 bits tão animado que parecia saber o que aconteceria naquela residência.
Eu juro para vocês: palavras não descrevem a quantidade de URROS, risadas e zoações que se sucederam. Eu tenho viva na minha memória, inclusive, a lembrança de um dos moleques, o Fabrício, pulando, apontando e gritando feito um louco de hospício, com o olhar transviado de tanto prazer pela desgraça alheia. O Diego ficou atônito, começou a balançar o queixo, tentou falar alguma coisa… mas com tanta pressão logo se pôs a CHORAR, num espetáculo mórbido que só foi interrompido com a pronta intervenção da minha mãe.
Mas isso não impediu que se tornasse motivo de piada até se mudar dali, uns dois anos depois. “Cê tomou gol do Patón, cara!” era a resposta, sempre que ele dizia qualquer coisa.


















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